Matéria #5 - A Geração que Falhou

(AVISO DE SPOILERS DE RING NI KAKERO 1 E 2)
O final de Ring ni Kakero é agridoce de muitas formas. Ryuji realiza seu sonho de ser campeão mundial de boxe, chegando ao topo como um verdadeiro homem e com o peso de tudo que teve que passar, mas em troca de seu sonho o personagem também dá sua própria vida. Bonito, melancólico, trágico, trazendo a tona uma emoção a flor da pele, como é característico nos mangás do mestre. Existe, no entanto, um lado ainda mais interessante de se explorar e ver com o final da obra.
No primeiro texto que fiz sobre Ring ni Kakero, destaquei como o Kurumada fez uma forte crítica a sociedade japonesa da época, criticando a perda de valores, a forte presença dos EUA no Japão, se não mais de forma militar como foi até o início da década de 50, mas agora de forma cultural, mudando valores tradicionais japoneses que eram, até então, muito fortes dentro daquela sociedade. Apesar de ter abandonado essa crítica mais forte conforme o mangá foi avançando, o mestre passou a falar o que queria de forma um pouco mais velada e metafórica, é assim então que surge a ideia do "Japão Júnior", uma geração de boxeadores que enfrentam o mundo, sempre em busca da vitória perfeita e mostrando aos seus compatriotas que eles poderiam ser mais.
É nesse tom positivo que a jornada de Ring ni Kakero se encerra, onde vemos como aquela geração foi grandiosa, não apenas com o boxe, mas vendo os próprios caminhos de Ishimatsu, Shinatora e Kawai, além é claro da disputa pelo cinturão de campeão do mundo feita por dois japoneses, Kenzaki e Ryuji. A obra foi publicada justamente em um contexto de positividade com o futuro, graças ao crescimento econômico experimentado pelo Japão, que culminou em avanços tecnológicos para o país, além de momentos de transformação social através de greves e movimentos ao longo de todo os anos 60 e 70, além dos anos 80 é claro, ainda que em menor grau. Após Ring ni Kakero ser publicado, o país também passou por um boom de exportação cultural crescente, começando ainda nos anos 80 com mangás e animes sendo cada vez mais vendidos e transmitidos para países estrangeiros, especialmente no ocidente, onde viveu o verdadeiro "boom" a partir dos anos 90.
Porém, nem tudo saiu como desejado. A sociedade japonesa passou por inúmeras transformações com o avanço de uma globalização que parecia cada vez mais palpável, e o momento de crescimento econômico chegou ao fim com uma forte crise no setor financeiro e imobiliário nos anos 90, fato este que fez o período ser chamado de "Década Perdida". Todo o otimismo e esperança para o futuro pós segunda guerra que existia foi fortemente derrubado, e ao que parece, o mestre Kurumada também enxergava isso, tanto que a página de abertura de Ring ni Kakero 2 é um tanto, digamos, expositiva com relação as suas opiniões.

O recado do Kurumada, ao meu ver, é claro: a geração que deveria levar o país para um lugar melhor fracassou. E acho que posso ir além. Kurumada deixa claro que a sua geração fracassou, já que ele tinha 23 anos quando publicou o primeiro Ring ni Kakero e 46 anos quando iniciou Ring ni Kakero 2, ele foi a lançamento em 2000! Porém, sinto que a crítica do mestre vai um pouco além de como sua geração não tornou o Japão um lugar melhor, mas também parece criticar aqueles que já estão aqui, essa nova geração de crianças que teve como exemplo sua geração falha e que por isso é tão falha quanto. A melhor exemplificação está nas primeiras páginas do mangá, acompanhemos então.

A narrativa visual importa tanto quanto a textual nessa cena. Primeiro temos um adolescente completamente fora dos padrões comuns japoneses. Seu cabelo não se parece com nada típico do Japão, sua forma de se vestir é chamativa, seus amigos ao seu lado se vestem como "delinquentes" tal como ele próprio, e acho que até o skate na mão de um deles é uma forma de sinalizar isso. A própria namorada do jovem agressor apela de alguma forma para essa estética de juventude corrompida. O adulto, por sua vez, é desenhado de forma "tosca". É uma caricatura, alguém que devemos sentir pena só de olhar, não apenas por estar sendo intimidado por adolescentes, mas por não ser capaz de se defender sozinho e ter uma face chorosa. O elemento principal da cena, obviamente, é o canivete que o mais novo puxa para atacar o adulto. O Kurumada a todo instante quer nos comunicar isso. A corrupção dos mais novos, a falha dos adultos em quem eles são, mas também faz um contraponto a partir de seus próprios heróis e de como eles são representados. É assim que Ishimatsu chega no local e surra os adolescentes, e sua própria imagem é de imponência e seriedade, sendo um contraste curioso com sua versão de Ring ni Kakero.


Percebam, mesmo que a geração inspirada pelo Japão Júnior tenha se perdido, o Kurumada tenta sinalizar que seus personagens não se perderam como os outros. Não apenas Ishimatsu é representado como um verdadeiro adulto, mas Kawai, Shinatora e Jun também são postos nesse mesmo patamar de exemplos ainda a serem perseguidos, e que através de seus filhos, ou sobrinho no caso de Kawai, ainda tentam moldar uma nova geração, mesmo que percebam suas falhas e fraquezas. O destino é trágico com outros daquela geração, como o caso de Kenzaki e Kiku, além é claro do próprio Ryuji que falece ao final do primeiro mangá, mas seus espíritos e ideais sobrevivem através de seus companheiros.
É dentro desse pensamento que Ishimatsu aparece para nós, servindo como mentor para Rindo, o personagem principal, e como um recado direto para o leitor. Antes de se encontrar com seu sobrinho/filho adotivo, tem uma fala singela de Ishimatsu que reverberou muito comigo. Talvez para você que está lendo isso, o mestre Kurumada pode soar apenas como um velho rabugento reclamando dos mais novos, pondo a culpa em tudo e todos, mas vai além disso. Quando o mesmo adulto que estava apanhando faz esse papel de reclamar da juventude, os chamando de escória, a resposta de Ishimatsu é direta: "Mas ainda não são adultos."
Veja, por mais negativo que seja o tom inicial de Ring ni Kakero 2, Kurumada mais uma vez quer passar uma esperança através de sua própria escrita. Ishimatsu dizer que eles ainda não são adultos significa que essa geração ainda tem tempo de mudar, de crescer e evoluir. É muito por isso que o mestre faz seus personagens principais serem jovens, pois a juventude é o tempo de cometer erros, de falhar, de se encontrar, para que justamente na vida adulta você possa ser alguém digno, mesmo que ainda haja espaço para evolução. Em Ai no Jidai, sua autobiografia em mangá, essa é uma das mensagens principais que sinto que o mestre queria passar. Enfim, essas é a beleza da escrita tão subestimada de Kurumada.
É com isso tudo em mente que somos apresentados a Rindo Kenzaki, filho de Jun Kenzaki e Kiku Takane.

Rindo é o tipo de personagem que o Kurumada mais gosta de fazer, ou seja, ele é a personificação de algo, neste caso, uma personificação do que é o Japão e a juventude japonesa. Coberto de tatuagens, lutando de forma clandestina sem regras ou honra, desrespeitoso com os mais velhos, ele é tudo que o mestre enxerga na geração japonesa do final dos anos 90 e início dos anos 2000. Isso não é nenhuma novidade dentro de Ring ni Kakero, já que aqui temos apenas uma repetição do que era o próprio Ryuji no início da obra.
Ryuji inicia sua trajetória sendo um garoto fraco, inocente, incapaz de se defender e extremamente chorão. Era tão dependente de sua irmã que nem mesmo conseguia enfrentar seu padrastro abusivo, onde foi Kiku que o enfrentou para que tirasse seu irmão de casa por saber que ele era o futuro da família e do potencial que tinha no boxe. Ryuji também era uma personificação, mais especificamente, personificava o que era o Japão do pós segunda guerra. É sempre importante lembrar o contexto histórico não apenas de quando a obra foi escrita (1977), mas de quando o Kurumada nasceu (1953), o que faz com que ele tenha uma percepção da história diferente do que nós aqui no Brasil podemos ter da história japonesa. Aos olhos do mestre, e não apenas dele mas uma opinião púbica comum no Japão, em especial dos anos 60, o país havia se enfraquecido, era submisso e permissivo diante da cultura dos EUA que se infiltrava cada vez mais no país, algo que abordamos na primeira parte desse texto, e Ryuji nasce para mostrar isso.
É a partir da sua evolução e da união de forças com Kenzaki e os outros que Ring ni Kakero expõem uma visão positiva do futuro japonês, e uma vez mais o Kurumada recorre ao recurso dessa união em Ring ni Kakero 2, usando dos filhos ou parentes próximos dos protagonistas para estabelecer essa nova geração. No entanto, Rindo não é Ryuji. Se seu tio se transformou em um homem admirável e um verdadeiro símbolo respeitado, Rindo não consegue ser assim em nenhum aspecto. Mesmo que seja mais confiável e tenha evoluído no boxe, Rindo ainda é explosivo, cabeça dura e longe do que pode ser chamado de um ideal, ele ainda é produto da falha de uma geração, e talvez o principal personagem que demonstre isso, já que Kenzaki é demonizado por ele e o futuro de Kiku é trágico. E falando nesses personagens, quero destacar algumas coisas sobre isso nas próximas linhas.

Mesmo que essa geração dourada do primeiro mangá seja um exemplo a ser perseguido, ela não é glorificada pelo Kurumada. Ainda que Rindo tenha evoluído bastante ao longo do mangá, Ishimatsu falhou em conseguir criá-lo da forma que gostaria. Kenzaki falhou como pai e como marido, ao que tudo indica. Kawai se afundou na Alemanha até ser resgatado por seu sobrinho e por Rindo, e Shinatora se tornou tão rígido quanto seu pai era com ele. Não apenas eles, mas todos os velhos expoentes da geração de Ryuji aparecem com problemas ou falhas, principamente como figuras paternas. Vemos isso especialmente com Skorpion e seu filho, o arco dos Valois no mangá, além do arco dos Dandis Cicilianos. Não foi apenas a geração japonesa que entrou em desgraça, mas toda uma nova geração de pessoas cresceu em falha por culpa de uma geração antiga que foi fraca demais.
E o mestre parece querer deixar claro que a geração antiga mesmo tendo falhado, ainda pode servir de exemplo ou espelho, ainda que seja para não repetir os mesmos erros. No entanto, o que mais gosto que ele faça, é deixar claro ao leitor que aquelas gerações são diferentes entre si. É por isso, por exemplo, que no torneio na Alemanha a equipe júnior japonesa não consegue a vitória perfeita, o que era comum no primeiro mangá.

E que bom que isso acontece! Gerações novas devem caminhar com suas próprias pernas, com seus erros e acertos, com sua própria história e aprendizado. Mesmo que persiga a geração antiga, não deve ser igual a ela, ou falhará mais uma vez. É por isso que o perfil da obra também é um pouco diferente.
Se no primeiro texto eu disse que Ring ni Kakero não é só sobre boxe, o título desse poderia ser: "Ring ni Kakero 2 não se importa com o boxe". Golpes novos, vitórias perfeitas, treinos que os levariam a morte certa, esqueça tudo isso! Ring ni Kakero 2 é ainda mais sobre as pessoas, sobre as gerações, mas principalmente de um resgate. A jornada de Rindo junto de Iori e os outros é muito menos sobre fazer do Japão uma potência outra vez e muito mais sobre corrigir problemas. reestabelecer conexões e unir o passado ao presente em direção a um futuro ideal. Sinto que isso é um reflexo também da mudança do Kurumada enquanto escritor e pessoa ao longo dos anos. Otokozaka já evidenciava uma diferença no seu pensamento a respeito do Japão, o que só se confirma com o final da obra, mas outros trabalhos como Saint Seiya e B'TX, são bem mais carregados de uma visão de mundo um pouco diferente de Ring ni Kakero. A violência para Kurumada passa a ter um papel diferente do que tinha inicialmente, mas um dia escrevo sobre isso.

O que é um herói? A pergunta abre espaço para múltiplas respostas, ao menos na minha opinião, mas se Ring ni Kakero 2 pudesse responder a essa pergunta, talvez a resposta fosse que um herói é aquele que mesmo com seus erros e falhas, consegue ser mais grandioso que seus pecados para que o futuro esteja cheio de bênçãos. Ainda que a geração de Ryuji tenha falhado, eles ainda são o símbolo que os jovens devem mirar e observar com carinho. Nenhum homem está a altura de sua própria fama, mas o que importa não é o homem e sim sua ideia.
No momento em que escrevo isso, nós da Kurumada Legends ainda estamos traduzindo Ring ni Kakero 2, que teve seu fim em 2008. Se Ryuji ao final da obra morreu para se transformar justamente nesse ideal a ser perseguido hoje, ainda não posso dizer com certeza qual será o final da construção de Rindo e seus companheiros. O arco em que estamos agora, o arco do torneio na Grécia, nos levou a novos elementos e personagens que podem ajudar a montar esse final, mas ainda é cedo pra dizer.
Depois de quase vinte anos desde o fim da obra, o que será que o mestre pensa sobre o Japão atual? Será que aos seus olhos a geração de Rindo falhou tanto quanto a de Ryuji? São perguntas que me faço e sei que jamais terei resposta, mas não custa sonhar, não acham?
Por esse texto foi isso. Espero que tenham gostado de mais essa reflexão sobre o trabalho do mestre Kurumada, e em breve trarei mais textos como esse pra vocês! Um abraço do Damien, vejo vocês na próxima matéria!








































