Matéria #3 - Qual o Futuro do Mestre Kurumada?


            O ano de 2025 acabou de iniciar e com ele algumas dúvidas começam a surgir e aumentar na mente de todos aqueles que gostam do trabalho do mestre Kurumada. Afinal, o que ele tem como seus próximos passos? O que vem agora nesta próxima fase de sua carreira? Quero tentar falar um pouco sobre isso nesse texto que possui meramente um caráter opinativo, então reitero que nem eu e nem qualquer um da Kurumada Legends possui informações acerca do que tratarei aqui. Deixando isso claro, vamos ao que interessa. 

            Não é segredo para ninguém que estamos presenciando os últimos anos de trabalho do mestre Kurumada. Como um autor veterano, é natural que em breve ele decida pela aposentadoria, ou que por conta de sua idade já avançada, fatores que fogem ao controle de qualquer um o impeçam de prosseguir sua carreira. Com seus 71 anos de idade e 50 anos de carreira, vimos o Kurumada criar tudo que era possível. Já tivemos como temática de seus trabalhos coisas como: boxe, ninjas, delinquentes, aniquiladores de monstros, samurais, robôs e mais uma série de outras coisas que apenas reiteram sua incrível versatilidade. No entanto, a pergunta que fica é: "E agora?"

            Atualmente o mestre tem duas obras em publicação, Fuuma no Kojiro, que nos últimos anos vem sendo alimentada com o Gaiden focado no personagem Musashi Asuka, e Saint Seiya, que está sem uma data de retorno depois da publicação do capítulo intitulado de "Saint Seiya THEN: Flores na Ruína". Acredito que veremos a conclusão da jornada de Musashi pelo país morto e que Saint Seiya voltará aos holofotes ainda esse ano, seja com a tão sonhada continuação da Saga do Céu/Saga Zeus/Saga do Olímpo, ou mesmo com algum gaiden focado em algum personagem, principalmente se tomarmos como base a pesquisa que foi feita na Weekly Shonen Champion, local em que foi publicado o "Saint Seiya THEN". O que também pode ocorrer, é que depois de concluir o Gaiden de Musashi nós poderemos ver algum outro personagem de Fuuma no Kojiro ganhando um gaiden, especialmente algum participante do arco da Guerra das Espadas Sagradas, mas honestamente acho muito difícil que o Kurumada continue publicando algo a respeito da obra. 

            Não é comum ao mestre, pelo menos nos últimos anos, que se dedique a uma única obra, e por mais que tenha o desejo particular de que ele faça isso com Saint Seiya pela ansiedade em ver o que está sendo preparado para nós, não me iludo com a chance dele focar apenas na aventura de Seiya e seus amigos. Partindo então desse princípio, penso que ele pode retornar com algum de seus trabalhos antigos, e tem dois que me vem a mente nesse momento. 

          O primeiro deles é uma obra que particularmente gosto bastante do pouco que vimos, Raimei no Zaji. 


         O primeiro capítulo de Zaji foi publicado em 1983, onde na publicação do único volume que chegou a ser publicado da história, o mestre menciona que pretendia fazer uma serialização. Esse mangá conta a história de Zaji, um cyborg que fugiu da instituição/laboratório onde seu corpo sofreu modificações, lugar conhecido como "HOME", e que foi ao Japão para poder encontrar sua mãe, já que ao ler suas origens de forma acidental, descobriu o nome e a localização dela. Infelizmente, Raimei no Zaji não viu a luz do dia por muito tempo, sendo cancelada com apenas três capítulos e estes sendo encadernados em um único volume. 

            No entanto em 21/10/2014, durante as comemorações dos 40 anos de carreira, Kurumada publicou um capítulo especial na estreia da revista digital Champion Cross, que anunciava a volta de Raimei no Zaji! Mesmo sem uma data específica, a última página do capítulo diz com todas as letras que "Zaji estará de volta". E agora, quase onze anos depois, não temos qualquer sinal da volta dessa obra. É curioso pensar que o mestre possa voltar com uma publicação tão antiga, principalmente quando vemos o caso de Otokozaka, que também retornou em 2014 e terminou seu ciclo de publicação em 2024 (talvez o mestre tenha decidido se focar em Otokozaka e deixar Zaji para depois).


            Zaji, então, é a obra perfeita para que o mestre Kurumada possa trabalhar em paralelo a Saint Seiya, já que pelo ritmo que vimos a história se desenvolvendo até aquele momento, não imagino que vá ser uma publicação tão longa quanto ele pretendia, e seria mais uma forma de fechar uma ferida que foi aberta há muito tempo. O vimos fazer isso com Otokozaka, obra que o próprio diz ter nascido para escrever, e ainda mais recentemente com Fuuma no Kojiro, um trabalho que ficou aquém do desejado por uma questão pessoal que influenciou na publicação da obra, ou seja, o falecimento do pai do mestre Kurumada. 

            No entanto, falei mais cedo sobre duas possibilidades de obras que ele poderia trazer para essa parte final de sua carreira, e se a primeira foi Raimei no Zaji, a segunda é a continuação de seu mangá autobiográfico, Ai no Jidai. 


            Se nessa primeira publicação o vemos explorar o início de sua carreira, compreendendo de sua juventude escolar até a publicação de Ring ni Kakero, uma continuação de sua autobiografia poderia explorar o período em que ocorreu as publicações de Fuuma no Kojiro, Otokozaka e até mesmo Saint Seiya! Da mesma forma que não vejo Zaji como uma publicação tão longa, sinto que uma continuação de Ai no Jidai também não seria, a menos que ele decida explorar a fundo cada uma dessas publicações que fez nos anos 80. Vindo do mestre não é algo que eu exatamente duvido, mas pensando que ele sempre gosta de ter um motivo para contar suas histórias, mais especialmente, gosta que os leitores estejam interessados no que ele tem a passar, me pergunto o quão estimado é esse trabalho para o mestre Kurumada. 

            É claro, tudo que estou falando aqui é meramente uma conjectura, não quer dizer que tenho razão nem nada do tipo, e por isso, acho que vale explorarmos mais uma possibilidade, mesmo que seja a mais improvável aos meus olhos. O mestre pode optar por não continuar com outras publicações e ter o foco apenas em Saint Seiya. Parando pra pensar no caminho que ele vem trilhando pós B't X, vemos um retorno a Ring ni Kakero, olhando para aquela realidade do mundo do boxe japonês e a sociedade da época de uma forma diferente, vemos a volta de Saint Seiya depois de anos parado, primeiro com o Prólogo do Céu e depois com Next Dimension, tivemos a volta e encerramento de Otokozaka, e agora o preenchimento de Fuuma no Kojiro com o Gaiden de Musashi.

            Percebam, o Kurumada parece estar fechando pontas soltas ao longo de sua carreira, e vem se despedindo de seus títulos de maior sucesso em grande estilo. Saint Seiya é o maior trabalho da carreira do mestre, e ele próprio se refere a obra como sendo o seu "título mundial" quando faz uma analogia com boxe, e é a única de suas obras grandes que não foi plenamente finalizada. Por mais que diga que seus trabalhos estão sempre abertos a continuações, nós que o acompanhamos e sabemos de suas obras ao longo dos anos, também somos capazes de saber quando um ciclo de uma obra acabou para ele. 

            Next Dimension foi, em termos de publicação, uma obra esquisita, diria até mesmo atípica para os padrões do Kurumada. Ele nunca passou tantos anos publicando uma mesma obra e nunca o fez com tão pouca frequência. Foram dezoito anos para dezesseis volumes, o mesmo tamanho de Fuuma no Kojiro por exemplo, que é considerado por muitos kurumadistas o pior de seus grandes trabalhos. Capítulos extremamente curtos no início, longos tempos de hiato, Next Dimension não agradou muitos que leram o trabalho do mestre, e já aviso que este que vos escreve é um grande apreciador da obra, mas não escondo os problemas que rondam a produção da continuação da saga clássica. O final em aberto, a vinda de Saint Seiya THEN com um prólogo tão aberto como foi feito com a Saori já nos indicam uma continuação, mas algumas declarações do Kurumada a respeito disso são interessantes. 

            Ele próprio admite que, inicialmente, Next Dimension era para ser um trabalho mais curto. Olhando a agenda dele, isso faz sentido, já que tanto B't X quanto Ring ni Kakero 2 duraram alguns anos, mas não tanto quanto Next Dimension. O que o fez esticar a corda? Qual era sua ideia original para a obra? Esse tipo de coisa é muito difícil de saber, mas certamente ele não usou tudo que poderia nessa obra e veremos alguns desdobramentos interessantes no arco que nos aguarda. Podendo se dedicar exclusivamente a produção desse próximo arco (ainda sem nome certo, vale lembrar), Kurumada poderia entregar aos fãs um trabalho de forma mais rápida do que foi Next Dimension, que talvez fosse recebido melhor pelo público, e que certamente o deixaria finalmente "em dia" com todos os seus grandes trabalhos e fãs, abrindo caminho para uma boa aposentadoria como mangaká, o deixando livre como gestor e consultor. 

            Só que eu sei, você que está lendo sabe, todos que acompanham o nosso bom velhinho sabem, ele é do tipo que vai trabalhar até não estar mais nessa Terra. Sempre foi orgulhoso e protetor com suas obras, mesmo que o fã de Saint Seiya não entenda o que esse "protetor" significa, mas acho muito difícil que ele algum dia escolha se aposentar. Sua principal marca sempre foi o traço ardente e a juventude que ainda arde dentro de si, mesmo que a idade fosse avançando aos poucos. Olhando de fora, sinto que ainda existe muita lenha para queimar quando se trata do mestre, e enquanto ele seguir avançando, eu estarei lendo, apreciando e me emocionando com cada uma de suas obras, pois fui pego pelo caloroso sentimento que o traço ardente é capaz de causar. 


            Então, seja Raimei no Zaji, mais gaidens de Fuuma no Kojiro, Ai no Jidai ou a até a volta Evil Crusher Maya (ok, exagerei, mas seria incrível uma nova saga), aproveitem. Aproveitem com carinho cada diálogo exagerado, cada lição de moral, cada choro, cada empolgação e ansiedade. Estamos vivendo a parte final da jornada de um dos maiores mangakás do Japão, e pelo que ele fez pela indústria não é nenhum exagero chamá-lo dessa forma. E não peguem leve com ele! O critiquem, sejam chatos, mas apreciem. Até mesmo as reclamações um dia se transformarão em saudade e no mais puro carinho. 

        Ah, mestre... Como eu queria que o senhor pudesse ser eterno.