Entrevista Figure Oh N° 109 [Fevereiro de 2006] - Masami Kurumada



Entrevista com Masami Kurumada na revista Figure Oh, número 109 (fevereiro de 2006), que apresentou com exclusividade o Cloth Myth do Cavaleiro de Cristal.


1. Para começar, falemos sobre o nascimento de Saint Seiya.
- Masami Kurumada: Os mangás que eu havia desenhado até então eram de um gênero mais brutal e cheios de suor. Então quis acrescentar um toque de elegância usando as constelações e a mitologia grega como coluna vertebral. Mas como este é só um trabalho de entretenimento, não existe um significado profundo por detrás dessa escolha. As fãs mulheres de Saint Seiya são muito presentes, mas os mangás kurumadianos continuam sendo, sobretudo obras de sangue quente. Em vez de ter mulheres gritando: “Kyaah, kyaah” logo ao começar, eu tinha a intenção maior de destiná-lo aos homens que gritam: “Cale-se!” (N.T.: como se fossem delinquentes).


2. De onde provém o conceito das Armaduras?
- Masami Kurumada: A aparência provém das antigas armaduras ocidentais, porém ao invés de um aspecto quadrado, procurei dar-lhes um desenho um pouco mais curvilíneo. Creio que a mais próxima às minhas primeiras ideias é a Armadura de Ouro de Leão vestida por Aiolia. Muitas Armaduras, são frutos das discussões com meus assistentes, foram criadas umas após as outras. Foi realmente difícil. Você não pode imaginar.


3. A Armadura de Pégaso mudou frequentemente de aparência, não é?
- Masami Kurumada: É verdade. E devo dizer que o elmo da armadura se parecia com um protetor de rugby depois que Mu a reparou pela primeira vez, não é verdade? De fato, como esse elmo não me agradava muito, me desdobrei para fazê-lo desaparecer depois dos combates no monte Fuji (riso irônico).


4. Entendo (risos). De qualquer forma, como você decidiu as constelações que seriam atribuídas aos personagens?
- Masami Kurumada: Primeiro pensei nos personagens, depois escolhi as constelações que melhor corresponderiam a cada um. Mas foi diferente com os doze Cavaleiros de Ouro. Primeiro peguei as constelações e depois criei os personagens correspondentes a elas.


5. Por que Máscara da Morte e Aphrodite são malvados, sendo Cavaleiros de Ouro?
- Masami Kurumada: Como os Cavaleiros de Bronze tinham que atravessar as doze Casas do Zodíaco, teria sido difícil escrever uma história apenas com Cavaleiros de Ouro bons. De fato, penso que é mais interessante inserir alguns personagens malvados, não? Pessoalmente, acho que desenhar um personagem como Máscara da Morte é muito agradável. Mesmo com uma atitude má, esse tipo de personagem é divertido, e colocá-lo em cena é fácil.


6. Você é bom em escolher nomes?
- Masami Kurumada: A escolha dos nomes é um elemento fundamental dos Kurumangás. É necessário que os protagonistas tenham nomes interessantes, não é? Então, obviamente temos Seiya, a “flecha estelar” (risos). Em seguida vem Hyōga (N.T.: “geleira”). Creio que ninguém antes de mim havia usado essa palavra como nome. Como se trata do Cavaleiro de Cisne, eu queria dar a impressão de cisnes sobrevoando zonas congeladas. Visto que Ikki é o mais poderoso dos cinco, seu nome significa que é o mais brilhante de todos (N.T.: Ikki = “um + brilhante”). E como seu irmão mais novo é mais emocional que ele, eu escolhi o nome Shun (“instante”, “flash”) à imagem de um breve brilho. Em relação a Shiryu (“dragão púrpura”), tinha ouvido falar que a massa de água que flui pela cascata de Lushan como uma serpente era realmente muito similar a um dragão púrpura, daí o seu nome.


7. Entendo. Dada a enorme quantidade de personagens que aparecem em Saint Seiya, suponho que deve ter sido muito difícil decidir seus nomes e os de suas técnicas.
- Masami Kurumada: De fato eu passava muito tempo alterando e realterando os nomes. Terminava os desenhos deixando -OOOO- no lugar dos nomes, me dizendo que iria dormir e que discutiria isso no telefone depois. Quando de verdade não me vinha ideias, sempre termino consultando meu editor-chefe e pensamos juntos. Mesmo hoje às vezes ainda o faço (risos). Na verdade, no momento da pré-publicação de Ring ni Kakero acontecia que o nome de uma técnica especial era diferente dependendo da região em que a Jump era vendida, sendo a mesma história na mesma revista.


8. Como assim?
- Masami Kurumada: Isso é porque meu editor havia mudado o nome de uma técnica sem pedir minha opinião. Ele me disse por telefone: “Veja, eu pensei que era melhor assim, então eu o mudei por você.”, a que eu imediatamente protestei: “O que você disse?!! Corrija isso!!!”. Mas como parte das revistas já haviam sido impressas, então houve exemplares contendo a velha versão distribuída em algumas áreas, enquanto outras zonas receberam a versão corrigida. E é por isso que o nome da técnica difere de uma cidade para outra.


9. As Jumps que não incluíram esta correção devem ter se tornado itens de colecionadores (risos). Por outro lado, não se tratando só de Saint Seiya, como você faz para encontrar os nomes de personagens e técnicas?
- Masami Kurumada: Busco ideias em filmes, músicas ou livros. Mas dada a quantidade de nomes que eu usei, teria dificuldade em dizer qual foi a referência correspondente a um determinado nome. É por isso que buscar nomes me assusta agora, porque corro o risco de usar um já utilizado (risos). Um nome no qual pensei muito foi “Winning the Rainbow” de Ring ni Kakero. Este provém de um ensaio sobre a ilha de Madagascar que fala de um grande arco-íris que atravessa o continente africano. A história de um arco-íris tão imenso me tocou e é por isso que decidi escolher esse nome. Claro, eu não sei se as pessoas o chamam realmente de “Winning the Rainbow” (risos). Depois, no registro de canções, há Asuka Musashi de Fuuma no Kojirou. O título “ougon ken wo motsu otoko” (“o homem da espada de ouro”) vem de “ougon ju wo motsu otoko” (título japonês do filme de James Bond, “O Homem com a Pistola de Ouro”). A cena de abertura das portas dimensionais está inspirada no tema principal do filme “Os Diamantes são Eternos”. Estes dois exemplos são tomados de filmes de 007. Também, a cena em que Kenzaki se aproxima de Ryuuji durante a disputa final de Ring ni Kakero está inspirada na luta entre Muhammad Ali e Joe Frazier. Quando da “luta do século”, os dois combateram ferozmente, mas essa imagem transparece um sentimento de amizade. É uma foto singular que deixa uma forte impressão.


10. E agora queremos ouvir suas impressões sobre o anime de Saint Seiya. Como se sentiu quando foi confirmada a adaptação animada?
- Masami Kurumada: Você quer minhas impressões sobre a música e de ver meus desenhos movendo-se, certo? Fiquei muito animado e eu estava particularmente interessado na música que seria criada. Afinal, tudo aquilo que se faz em mangás carece de música; esse é um de seus pontos fracos. É por isso que há muitos personagens que usam técnicas musicais nos kurumangás. Orfeu de Lira, por exemplo.


11. E como foi quando você viu os episódios do anime?
- Masami Kurumada: Às 7 horas da noite, tive um choque enquanto o relógio soava. Vi os personagens correndo juntos de maneira muito bem feita. As músicas de Seiji Yokoyama eram magníficas. Depois, o que pensei dos tantos Cavaleiros inventados para o anime que apareceram também? Eu achei que era uma escolha realmente arriscada (risos). Observando eu me dizia: “Isto é lixo! É lixo!” (risos). Mas penso que é esse tipo de coisas que deu personalidade ao anime, não é? (risos) Porém creio que é uma coisa boa que meu mangá tenha tido uma versão animada. Ela permitiu às pessoas que não liam a Jump descobrir o mundo de Saint Seiya e também as levou a conhecer minhas outras obras.


12. De quais animes você gosta a nível pessoal?
- Masami Kurumada: Kyojin no Hoshi (1968) e Ashita no Joe (1970). Via principalmente as adaptações de mangás. Isso de criar animes baseados em mangás começou quando eu era criança.


13. Por outro lado, há brinquedos de sua infância que você recorda em especial?
- Masami Kurumada: Não. Na realidade não me compravam muitos. Quanto a meus hobbies na infância, frequentava as lojas de empréstimos de mangá e ia ver um filme uma vez por mês. Na época não havia muitas coisas disponíveis como hoje.


14. O que pensa da linha Saint Cloth Myth atualmente à venda?
- Masami Kurumada: Os bonecos antigos tinham um visual inchado, mas estes novos estão realmente bem feitos. Percebe-se o avanço tecnológico. As Armaduras têm um excelente acabamento e o aspecto leve e elegante que eu queria originalmente. Mas as Armaduras não são só proteções vestidas, também são capazes de assumir a forma de suas constelações, o que complica o assunto. Na época, era um conceito novo, e criar os projetos foi algo difícil para a Bandai.


15. Agora, que passagens você recomenda dos episódios recentemente produzidos da Saga de Hades - Inferno?
- Masami Kurumada: Naturalmente, a cena do Muro das Lamentações. Nas profundezas do Inferno, aonde a luz não chega, é o muro que só pode ser destruído pela luz solar. Como nossos heróis passarão? E recomendo também a cena em que os doze Cavaleiros de Ouro se reúnem.


16. Por que acha que Saint Seiya ainda é apreciado em todo o mundo mais de 20 anos depois?
- Masami Kurumada: Será que um mangaká deve realmente revelar o que faz encantador seu mangá? Não quero eu mesmo apontar o mangá dizendo: “Isto é o que tem que lhe agradar” (risos). De verdade quer que eu responda? Diria que é porque há um sentimento de internacionalidade nele? Isso é o que me disse um francês que viera coletar informações. Você sabe, eu tive a oportunidade de ser entrevistado ao vivo por telefone no programa de TV francês chamado "Club Dorothée". Perguntaram-me se não me era estranho usar a Grécia como cenário principal, e eu respondi que não me constituía nenhum problema. Ah, essa é uma boa lembrança.


17. Você já foi à Grécia?
- Masami Kurumada: Não. É que faz muito calor lá (risos). As temperaturas ultrapassam os 42 graus no verão. Como nunca fui, acho que o Santuário que eu projetei deve trair os modelos originais. Renjirou Shibata (N.T.: autor japonês dos anos 1950-1970) escreveu em algum lugar que “um romancista é alguém capaz de escrever mentiras convincentes”. Por outro lado, os cenários para o anime foram baseados em modelos reais. Sobretudo nos filmes, onde templos e lugares foram fielmente reproduzidos. Como se eles de verdade tivessem ido.


18. E, para terminar, qual é a sua mensagem para os fãs do Japão?
- Masami Kurumada: Que eu realmente lhes agradeço por me apoiar por mais de 20 anos. Cada mangá kurumadiano tem seus fãs, e esses fãs não deixam de demonstrar o amor que devotam às obras. Eles apreciavam muito esses mangás quando eram crianças. Sou feliz. Depois, há as pessoas que compram brinquedos de Saint Seiya. Às vezes gostaria de lhes dizer: “Bom, isso já é suficiente, você tem mais de 30 anos!”, mas também quero dizer-lhes que: “Eu lhes agradeço por continuar a manter esses itens consigo”. Bem, fique apenas com a última dessas duas frases (risos).

Se for possível, deixe-me manter as duas (risos). Obrigado por nos conceder seu tempo.